A crise do coronavírus semeou pânico e confusão ao atingir duramente os negócios durante os primeiros meses deste ano. Entretanto, tudo tem uma boa parte e, neste sentido, o Covid-19 também promoveu “quase involuntariamente” a colaboração entre empresas em busca de novos modelos de negócios e soluções globais.

Estes modelos fazem parte do conceito de Open Innovation, uma forma de progresso que tem ajudado as empresas a se adaptarem às dificuldades colocadas pela interrupção indefinida da atividade e pelo distanciamento social.

Durante o Covid-19, a atividade das empresas, seja B2B ou B2C, teve que se concentrar principalmente em:

  • Acelerar o investimento digital, para digitalizar a força de trabalho da empresa, instalando diferentes plataformas digitais para este fim. Embora já em 2019 70% das empresas tenham adotado algum tipo de estratégia de digitalização, este ano esse percentual aumentou exponencialmente.
  • Melhorar a colaboração com a implementação do teletrabalho, através do uso de programas como o Zoom para videoconferência, ou Equipes para trabalho on-line.
  • Para acelerar e melhorar os fluxos internos de informação na empresa, onde 74% dos funcionários pensam que às vezes as informações relevantes não chegam até eles, o que os leva a atrasos em seu trabalho.
  • Aumentar a infra-estrutura de segurança e adotar a autenticação multi-fator (AMF) para combater os riscos apresentados pelo aumento dos ataques cibernéticos.

Com este cenário mutável e imprevisível, as empresas tiveram que buscar maneiras de colaborar on-line para evitar se tornarem obsoletas em seus respectivos setores. É aqui que entra o conceito de Open Innovation e os benefícios que ele traz para o mundo dos negócios de hoje.

Open Innovation: colaborar para ser capaz de inovar

Open Innovation é o processo contínuo de colaboração e intercâmbio de informações e recursos tecnológicos, entre agentes internos e externos às empresas, através do qual estas empresas encontram novas e melhores soluções para os problemas dos usuários, ao mesmo tempo em que geram novos valores nos mercados tradicionais.

Trata-se, portanto, de um processo descentralizado e participativo sem restrições, sempre baseado em relações de mercado de longo prazo. Além disso, requer o intercâmbio de habilidades complementares entre diferentes empresas: empresas iniciantes, empresas tradicionais, grandes conglomerados e universidades, e onde o papel da tecnologia desempenha um papel de liderança. Quanto maior a criatividade e o uso efetivo de talentos e conhecimentos especializados, melhores serão os resultados para a empresa.

Grandes empresas como Ferrovial, BBVA, Telefónica e Barclays adotaram estratégias e estruturas sólidas para inovação interna, separadas do tradicional departamento de pesquisa e desenvolvimento, e apoiadas por uma forte cultura empresarial orientada à inovação, geralmente promovida pelo estabelecimento de uma unidade especializada em inovação e também pela nomeação de um CIO (Chief Innovation Officer) ou CDO (Chief Digital Officer) para supervisionar o processo.

Com base nestas estratégias internas, as empresas projetaram sua linha de ação em inovação, por exemplo, para investir em um fundo de capital de risco corporativo ou para criar um programa de aceleração corporativa. De fato, 78% das grandes empresas européias afirmam ter um fundo de capital de risco corporativo dedicado a investir em novas empresas, 64% delas investiram entre 1 e 5 empresas iniciantes, e as 6 ou mais empresas restantes, durante o último ano. Além disso, 70% das empresas têm um programa de aceleração corporativa para dar mais apoio às empresas em fase de arranque e manter um compromisso ativo com elas.

Finalmente, é interessante mencionar que a aquisição e uso de tecnologias de fora da empresa é conhecida como Inbound Innovation, e é comumente o método mais utilizado de inovação. No entanto, a inovação nem sempre tem que vir de fora, em muitos casos as empresas apóiam os talentos internos financiando e orientando projetos intra-empresariais concebidos por funcionários com espírito criativo que às vezes acabam criando uma empresa inicial.

Benefícios da Open Innovation

Os principais benefícios que as empresas encontram em Open Innovation são:

  • Ela oferece às empresas uma vantagem competitiva muito significativa sobre as empresas que não adotam estratégias de Inovação Aberta, melhorando os processos comerciais, a relação empresa-empregado e a própria experiência do cliente.
  • Ele aumenta os lucros e melhora substancialmente a rentabilidade do negócio.
  • Ela permite que o desenvolvimento tecnológico da empresa seja muito mais rápido e eficiente, sempre a partir de uma mentalidade win-win, orientada para assumir altos riscos, dando à empresa maior flexibilidade diante de ambientes em mudança.
  • Configura um quadro mais claro em termos de monitoramento de casos de sucesso e negócios gerados em tempo real no mercado. Não há espaço para a cegueira corporativa.
  • Em relação ao ponto anterior, é interessante mencionar a gestão do conhecimento como um requisito para estar na vanguarda, e um benefício no sentido de que é, em grande medida, uma forma de gerir a percepção do ambiente de uma determinada empresa.
  • Com modelos como desafios, parcerias entre empresas iniciantes, a Hackathon, intra-empresa ou laboratórios de co-criação, a estratégia Open Innovation ganha em velocidade e agilidade de desenvolvimento ao mesmo tempo em que dá à empresa fácil acesso a especialistas e especialistas em diferentes setores, que em muitos casos se tornam parte da equipe de inovação da empresa, ou dá oportunidades de negócios através de parcerias e mentorias.

A Open Innovation é agora mais necessária do que nunca

A crise do coronavirus tornou a colaboração entre empresas mais necessária do que nunca, colocando a atividade em benefício da sociedade antes da busca de benefícios comerciais.

A comunidade científica tem chamado empresas, organizações e startups para compartilhar seus dados a fim de melhorar a reação conjunta ao vírus e acelerar o processo de recuperação.

Na Espanha, por exemplo, a companhia de seguros DKV, lançou seu aplicativo de telemedicina “Eu quero me cuidar mais” gratuitamente para descongestionar hospitais, permitindo que eles se concentrem nos casos mais graves de coronavírus, evitando possíveis novas infecções em trânsito. Também lançou sua iniciativa “#NoneMajorSolo”, que forneceu apoio emocional e psicológico às pessoas idosas durante a pandemia.

Outras empresas como a Samsung colaboraram com ONGs como a Save The Children para entregar cerca de 600 comprimidos para permitir que estudantes carentes continuem com as aulas à distância. A Repsol, por sua vez, readaptou seu centro Repsol Technology Lab para produzir gel hidroalcoólico.

A nível tecnológico, a colaboração entre o Google e o Ministério da Indústria também é notável, com o lançamento da plataforma ‘Impulso Digital con Google’ para digitalizar as PMEs e ajudar na recuperação econômica, prestando especial atenção ao setor turístico espanhol. De acordo com dados da Comissão Européia, apenas 14% das PMEs espanholas têm um plano de digitalização.

Além disso, em setembro, o Google lançará do ‘Google for Startups Campus Madrid’ sua ‘Growth Academy: Traveltech’, juntamente com a UNWTO e a EMEA, para promover startups tecnológicos relacionados com o setor de turismo e treinar profissionais em habilidades digitais.

Assim, o Google acrescentou novas funcionalidades em suas aplicações clássicas como Maps e My Business, para que as empresas possam acrescentar informações interessantes ao consumidor, como se oferecem comida em casa, ou se oferecem aulas on-line, entre outras.

Do ponto de vista da eficiência empresarial e da colaboração, uma das melhores e mais inovadoras formas de entrar na vanguarda tecnológica é através dos eventos da Hackathon.

Hackathon

Uma Hackathon, a partir da combinação das palavras Hack e Marathon, é um evento que dura um ou dois dias, onde são buscadas soluções inovadoras em um ou vários tópicos específicos.

Os participantes, que podem ter diferentes perfis, desde estudantes universitários do setor STEM até líderes de diferentes indústrias, trabalham em pequenas equipes e em um ambiente que estimula a criatividade e a busca de soluções experimentais, através das quais as equipes apresentam novos conceitos, idéias e protótipos para soluções altamente inovadoras focadas em um determinado setor.

A Hackathon oferece múltiplos benefícios, entre os quais estão:

  • Eles servem para ver problemas comuns de perspectivas incomuns, encontrando assim soluções nunca antes pensadas.
  • Eles criam uma cultura hacker, focada na criatividade do inusitado, na velocidade e no brilho técnico.
  • Eles são relativamente fáceis de organizar e são um atalho para a inovação através de idéias e talentos, as empresas trazem suas equipes de pesquisa e desenvolvimento e saem com protótipos que realmente funcionam 100%.
  • Em muitos casos, as próprias empresas utilizam esses eventos para descobrir e recrutar novos talentos e especialistas do setor.
  • Eles podem melhorar a imagem de uma empresa, através do marketing e da mídia.

Exemplos recentes deste tipo de evento incluem a Comunidade de Madri, onde se realizou a “hackathon virtual #VenceAlVirus”. Este concurso multidisciplinar foi realizado durante o Covid-19 para encontrar soluções tecnológicas relacionadas com a saúde, o emprego, a comunidade e os negócios.

Por sua vez, o campus da ESIC Business & Marketing School em Valência organizou sua primeira Hackathon virtual para ajudar empresas, estudantes e professores a contribuir com novas soluções para a fase de recuperação após a pandemia, do ponto de vista dos negócios, da sociedade e das pessoas.

O BBVA também lançou sua iniciativa “Ninja” para promover o talento tecnológico dentro do Grupo BBVA. Os participantes dos 15 projetos finalistas trabalharão durante uma semana com mentores do BBVA para preparar o protótipo e apresentá-lo a um grupo de especialistas para implementação.

A Línea Directa foi outra empresa espanhola que aproveitou a pandemia para promover a inovação, e lançou sua 3ª edição do “Big Ideas”, uma Hackathon on-line, destinada a estudantes universitários com perfil criativo e STEM, para pensar em soluções inovadoras para a digitalização do setor de seguros.

Em nível internacional, destaca-se o HackCorona, evento no qual cerca de 300 pessoas, em 48 horas, uniram forças para apresentar 23 propostas no total, tais como a criação de uma moeda digital comunitária para voluntários, ou Inteligência Artificial para desenvolver mais rapidamente possíveis vacinas para o vírus.

No setor automotivo, ‘KODA AUTO DigiLab organizou sua ‘COVID Mobility Race’, onde 52 equipes de 19 países colaboraram para encontrar soluções digitais para o comércio automotivo. A equipe israelense, Matter, foi escolhida como vencedora por sua incrível tecnologia 3D para showrooms virtuais.

Conclusões

A inovação aberta é um requisito básico para que a empresa se mantenha competitiva e na vanguarda do que está acontecendo em cada setor, no nível tecnológico e operacional. As empresas que não adotam estratégias internas e externas focadas na inovação através da colaboração estão destinadas ao fracasso.

Apesar desses momentos de crise durante o Covid-19, que aumentaram o interesse pela inovação e aceleraram a implantação de novas estratégias de digitalização e colaboração, ainda existem certas dúvidas em alguns setores, sobre questões como registro ou regulamentação de patentes e limitações no acesso a informações cruciais em certas empresas, em setores como o farmacêutico ou de TI, com questões como o acesso ao código aberto, ou a implantação em massa de certos tipos de software. Entretanto, a longo prazo, estas dúvidas, que são totalmente válidas agora, significarão um bloqueio no fluxo natural no qual todo o ecossistema das empresas se move.

Finalmente, as necessidades dos clientes nunca mais permanecem as mesmas após uma crise. Pode ser conveniente para o empresário pensar assim, mas na maioria das vezes isso não é o caso. Portanto, ter estabelecido novas maneiras de gerar Inovação Aberta pode proporcionar a flexibilidade muito necessária e, no final, garantir a viabilidade da empresa.